A MEMÓRIA A PARTIR DE UM TRONCO SÓ

Mais de 200 pessoas já assistiram o documentário em vídeo que aborda a prática artesanal pesqueira da região litorânea catarinense a partir da milenar canoa bordada.

Por William Wollinger Brenuvida, jornalista

A prática artesanal pesqueira no litoral catarinense envolve um sentido comunitário e o aprendizado legado por gerações. Feitas do tronco do garapuvu, árvore símbolo de Bombinhas e Florianópolis, a canoa é um tipo de embarcação que serve de elo entre a prática da pesca e o meio ambiente. Pensando a sensibilização socioambiental por onde passa a preservação da água e o uso racional dos recursos hídricos, o Comitê Tijucas Biguaçu desenvolveu, com recursos do Edital Elisabete Anderle para Cultura, o documentário “Canoa bordada de garapuvu: a embarcação de um pau só”, que já foi exibido nas localidades de influência pesqueira de Biguaçu, Bombas e Ganchos, bem como em Porto Belo e Tijucas, e vai ser exibido na próxima segunda-feira, 8/10, na Escola de Educação Básica Anita Garibaldi, em Itapema.

O documentário já foi exibido nas localidades de influência pesqueira de Biguaçu, Bombas, Ganchos, Porto Belo e Tijucas (foto)
Resistência e prática

As mais de 60 embarcações chamadas de canoas bordadas, de voga ou de um pau só, feitas a partir do tronco do garapuvu, no município de Bombinhas reforça um movimento para preservação da memória e entendimento da formação cultural do litoral catarinense, haja vista a existência dessas embarcações também nas colônias pesqueiras de Ganchos, Porto Belo e Tijucas, bem como em Biguaçu e na capital Florianópolis. A técnica para construção das canoas foi obtida com os indígenas que há mais de 3 mil anos caçavam tubarões e raias, e foi aprimorada com a chegada dos vicentinos e africanos na formação das armações baleeiras. Esse aspecto é fundamental porque a caça das baleias começou no Brasil um século antes de ser praticada nos Açores, sendo os açorianos migrantes a partir de 1748 para Santa Catarina majoritariamente agricultores.

Para Alessandro Arno Mafra, pescador e vereador por Bombinhas, manter a prática dos antepassados é o legado mais importante para preservar a memória da pesca artesanal: “Lutamos para que a canoa não se torne apenas uma peça de museu, mas que continue no mar trazendo muita tainha para a mesa das famílias do litoral. Cuidar da canoa é lembrar dos nossos antigos sem esquecer do ambiente saudável para nossos filhos.”, diz Alessandro que é neto do popular seu Vardinho, da Praia de Ingleses, em Bombinhas.

Pesquisa e documentário

No decorrer do desenvolvimento do Projeto Informar: tubarões e raias, em 2017, os pesquisadores Tiago Martins e William Wollinger Brenuvida, do Comitê Tijucas Biguaçu, observaram que este sentido e legado da pesca artesanal ainda é muito vívido na memória da comunidade pesqueira dos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos (Ganchos), Porto Belo (Garoupas) e Tijucas. Ao documentarem a existência das canoas bordadas de garapuvu, em diversas localidades da Baía de Tijucas decidiram participar do Edital Elisabete Anderle de Cultura para a confecção de vídeo documentário.

O documentário é um curta-metragem de 30 minutos, com depoimentos de pescadores, mestres artesãos e pesquisadores que narram a importância socioambiental e sócio histórica da canoa bordada de garapuvu que os indígenas da Nação Guarani denominavam de piroga. Os lusitanos já conheciam essas canoas antes da chegada no continente americano pelo nome de almadia, um conhecimento trazido com os árabes, chineses e africanos. Mostra a importância da conservação da árvore de garapuvu para a manutenção da prática pesqueira e do bioma da Mata Atlântica, haja visto que essa árvore preenche clareiras na mata em estágio de recuperação. O documentário rodado nas cidades de Biguaçu, Bombinhas e Florianópolis, bem como Governador Celso Ramos, Itapema, Porto Belo e Tijucas recebeu convites para exibição em colônias pesqueiras e comunidade escolar, reunindo em sete apresentações mais de 200 pessoas.

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