Babilônia na praia – Pode haver lazer mais democrático de que um dia de praia?

Por Suzi Aguiar

O sol escaldante derrete os miolos e faz reluzir o óleo bronzeador de algumas desavisadas. Será que nunca ouviram falar em câncer de pele? Num raio de 200 metros há muitos “botos cor de rosa” espalhados. Tem gente que vai dormir no cabide!

Enquanto isso, ele sai da água, será que em câmera lenta? Sacode a cabeça e gotículas de água mergulham no mar. Olhos azuis, corpo sarado – adquirido puxando ferro o ano inteiro – e bronzeado. Sim, ele é consciente de sua beleza e sabe que por trás de tantos óculos escuros, olhos curiosos o acompanham enquanto desfila até sua cadeira.

Na extensa areia corpos expostos buscam o bronzeado. Ali a beleza é o que menos importa. Enormes barrigas cobrem biquínis e calções. E viva a autoestima! Uma grande passarela se forma entre a areia e o vai e vem das águas. E por ela, apreciamos modelos de todas as idades, de todos os biotipos.

Olho ao meu redor num giro lento de 360 graus. Feio, feia, feio, feia, feia, feia, feio, bonita, feia, feio, feia, feia. É fato! Pessoas feias são a ampla maioria. Então porque as mídias nos fazem crer que ter beleza e ser magro é tudo? Seria tão melhor se fosse o contrário…

E por falar em beleza, que me desculpem as belas, mas a celulite é unânime nas bundas e pernas femininas. Sério! Se você não tem, fique tranquila, um dia vai ter! Num olhar de raio-X, vasculho todas e me convenço cada vez mais: Deus foi o mais machista dos homens! A mulherada despenca muito mais e mais rápido, por isso, o crescente número de clínicas de estética. Não, não pense isso! Lá é lugar de investimento! Claro que sou adepta!

Vale escrever um parágrafo a parte sobre os biquínis: florais, xadrezes, lisos. Os florescentes estão fora de moda. Mas quem se importa? Ainda é comum ver os de babadinhos, os amarradinhos mesmo que escondido entre as gordurinhas em excesso de uma vovó. E os sunquínis que vieram para que as cheinhas e as senhorinhas, que não ousam usar uma peça tão pequena, possam esquecer de vez que o maiô existiu. Na verdade estes, como raros ETs, só vemos em mulheres de corpos esculturais, querendo chamar atenção para si. Como se precisasse! Ai que ódio! Elas são coisa rara e com esta consciência desfilam lentamente enquanto todos os olhares a acompanham na passarela que tomou para si.

Mas há aquela que, fingindo timidez, sai da água, arruma o lacinho do biquíni, enrola o cabelo num coque displicente e deita languidamente na areia. Ufa! Ainda bem que é bicho em extinção. Uma dica: detectou sua presença? Pegue sua cadeira, puxe seu amor e mude de m2 na areia. Ufa!

Para as tatuagens todo o magnetismo! Escondidas na maioria dos corpos o ano inteiro, parecem se libertar de gaiolas. Surgem lindas, coloridas ou não, contando marcas da vida. Confesso: morro de curiosidade em descobrir o que significam e perco tempo tentando ler as frases. Mas nunca consigo, claro!

A pequena faixa de areia antes da água é disputada palmo a palmo por banhistas e os mais variados tipos de comércio: desde sanduíches naturais, açaí – a vedete por aqui nesta estação – churros, picolés, caipiras de todos os sabores, cervejinhas. Água? Não vi! E roupas de praia para todos os gostos e corpos, além de chapéus e óculos. Até o milho verde deixou a comodidade de seu cantinho e resolveu circular pelas areias. A competição está acirrada, mas a crise, apesar de não ter afastado os banhistas, os fez verdadeiros farofeiros. O pessoal traz de tudo. Monta quase um acampamento embaixo do guarda sol e passa o dia curtindo, da maneira mais democrática que existe, seu merecido descanso.

Fotos: Cristiane Toschi

Comment

  • Rute MiriamAlbuquerque

    janeiro 17, 2019

    Amei. Amei por inteiro, com minhas celulites e biquínis de muitos verões…..outro dia eu observava aqui da minha sala, e minhas percepções coincidem com as suas: praia é democrática, sim!

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