O que não morre não vive

Por Suzi Aguiar – escritora

As velhas e surradas sandálias cobertas de poeira foram testemunhas de sua longa trajetória. Por onde passara palavras de amor, sermões simples, mas de sábias mensagens emocionavam e traziam esperança.

Muitos foram os que deixaram tudo para trás e O seguiram. Mas é comum ver os que espalham amor e apontam outro caminho colherem desconfianças e dúvidas, fruto de um ser humano cada vez mais equivocado. Se por um lado multidões O seguiam, mais e mais inveja pairara entre os soberbos. Fora então perseguido, traído, julgado, crucificado e morto.

As estações da via sacra vistas e acompanhadas nos quadros da igreja desde minha infância, ou nos livros e filmes, hoje parecem mais reais. Da mesma forma mais palpável parece-me a dor daqueles que Lhe eram mais próximos.

Se fecho os olhos sinto a dor de Maria ao segurar o filho morto, cujas chagas esvaiam seu sangue. Somente sendo uma fortaleza, uma mulher nascida e preparada para dar à luz ao Filho Divino, poderia entender e aceitar o quanto o mundo fora rude com aquele que veio para nos salvar.

Posso imaginar o povo que o amava, acuado frente aos soldados de Pilatos e de uma multidão que refutavam Cristo como salvador do mundo. Posso presumir o quanto sofreram vendo Aquele que seria a luz morrer de forma tão bárbara.

Depois de ver o filho de Deus suplicar perdão aos seus algozes e em seguida dar o último suspiro, passos miúdos, sensação de que o chão saíra de seus pés, com o vazio consumindo o âmago, voltaram para suas casas.

O que fazer então? Qual o sentido da vida depois que a luz se apagou? Como seguir em frente se tudo seria dor, tristeza, insegurança, quietude e desalento? Como seguir depois que fora resumida em morte?

A morte, esta presença que amedronta, que recolhe, ao mesmo tempo une a comunidade em torno de uma dor e do sonho da vida eterna. Foi essa promessa que empurrou para frente passos cansados, seres que perdiam o sentido ali no Monte Calvário, aos pés da última cruz erguida.

E se Jesus voltasse da mesma forma e passasse a pregar a promessa de um novo tempo, de um novo mundo para os que fossem bons e justos você acreditaria? Você seria um dos escolhidos ou O crucificaria mais uma vez?

Prepara-se para o momento da partida, do ajuste de contas no outro lado da existência, busque ressurgir ininterruptamente.

Que possamos estar preparados, que possamos renascer no perdão das ofensas proferidas e recebidas, porque o que não morre não vive… mas como é difícil!

Comments

  • Rute MiriamAlbuquerque

    abril 21, 2019

    Suzi, minha querida, eu já estava farta das mensagens “orelhudas”. O simpático coelhinho já estava me provocando nervoso: como podemos comprar uma ideia consumista, nada saudável, e completamente antiecologica? Ainda bem que você me resgatou. Trouxe uma reflexão……e renovou meus desejos de que nossas crenças e práticas religiosas sejam instrumentos para espalhar harmonia…..

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  • Suzi

    abril 21, 2019

    Obrigada, Rute! Também sinto muita angústia em ver o coelhinho tomar o lugar Daquele que nos salvou.

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